IA no serviço público: o que a discussão sobre servidores e inteligência artificial deixou passar

Foto: Vittor Sales/Divulgação
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Quando a coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro falou em usar inteligência artificial no lugar de parte do funcionalismo, a discussão virou "robô no lugar de gente no balcão". O ganho de verdade está nos processos que o cidadão nem vai saber que passaram por uma IA.
No fim de setembro, em entrevista ao G4, Daniella Marques, coordenadora da área econômica da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência, defendeu que parte das carreiras administrativas e operacionais do Estado deixe de ser reposta por concurso à medida que os servidores se aposentam e passe a ser substituída por IA no serviço público. Ela citou o peso da folha, com 12,5 milhões de servidores nas contas dela, e fechou o raciocínio com uma pergunta: "Ou dá pra ir substituindo por IA?". A fala voltou às redes em outubro, repercutiu mal e, desde então, ela tem dito que a proposta não mexe em estabilidade nem em direitos adquiridos.
Vou deixar o voto fora deste texto. Não é sobre candidato nem sobre partido. É sobre a visão, e a visão faz total sentido.
O equívoco de quem comentou
Muita gente reagiu sem entender do que se trata. A leitura mais comum foi a de que a ideia é trocar o atendimento humano por IA: o cidadão chega ao órgão público, ou liga, e quem responde é um robô. As pessoas tendem a achar que é isso quando não entendem como a IA entra numa operação. Vi analistas políticos cometendo esse equívoco.
Atendimento é só a parte que aparece. Uma operação, pública ou privada, é feita de uma quantidade enorme de trabalho que ninguém do lado de fora vê: conferir, cruzar, classificar, aprovar, arquivar. É nesse trabalho que a discussão quase não chegou.
IA no serviço público onde o cidadão não vê
Tem muitos processos que o cidadão nem vai saber que estão sendo tocados por IA. A conciliação é o exemplo mais simples. Todo órgão que arrecada, paga ou repassa dinheiro precisa conferir, lançamento por lançamento, se o que saiu e o que entrou batem com o extrato. Em muitos lugares, isso ainda é feito por gente cruzando relatório. A automação com IA faz esse trabalho em minutos, e o cidadão nunca vai saber se quem conferiu foi uma pessoa ou um sistema.
A lista segue:
Conferência de documentos: checar se o pedido de um benefício, de uma licença ou de um alvará veio com tudo o que precisa, antes de alguém analisar o mérito.
Triagem de processos: ler o que chega e mandar para a fila certa, por tema e por urgência.
Análise de editais e contratos: varrer licitações em busca de preço fora do padrão e de exigência que restringe a concorrência.
Cruzamento de cadastros: encontrar pagamento duplicado, benefício para quem não tem direito e fornecedor com problema em outra base.
Nada disso é hipótese. Dois exemplos já rodam há anos no Estado brasileiro.

Alice e Victor: a IA que já trabalha no Estado
A Alice, sigla de Analisador de Licitações, Contratos e Editais, foi desenvolvida pela Controladoria-Geral da União e analisa os mais de 500 editais publicados por dia no país. Em 2024, os alertas dela levaram a 206 auditorias preventivas sobre R$ 25,57 bilhões em compras, e as auditorias já concluídas economizaram R$ 257,25 milhões. Num hospital federal do Rio de Janeiro, uma compra de aventais estimada em R$ 16,7 milhões foi suspensa depois que o sistema apontou possível sobrepreço de R$ 10,9 milhões.
No Supremo Tribunal Federal, o Victor apoia desde 2018 a triagem dos recursos extraordinários, identificando quais estão ligados a temas de repercussão geral. Ele entrou como apoio a quase meia centena de servidores que faziam essa classificação. E o próprio STF ressalta que a IA não age sozinha: tudo passa por supervisão e revisão humana.
Nenhum cidadão que entrou com um recurso ou participou de uma licitação precisou saber disso. O processo ficou mais rápido e mais barato por trás. É desse tipo de IA que a discussão deveria tratar.
A mesma conta que as empresas já fazem
A pergunta da Daniella é a mesma que qualquer empresa faz quando alguém sai: repor a vaga do mesmo jeito ou redesenhar o processo? No artigo anterior, sobre eficiência operacional com IA, falei da tendência de empresas trabalhando com menos profissionais e com um coeficiente de eficiência maior entre eles. Menos gente, produzindo igual ou mais do que se produzia antes. O Estado não está fora dessa conta.
E o equívoco dos analistas também se repete dentro das empresas. Quem pensa a IA só como um chatbot no atendimento deixa de olhar para onde está o volume de trabalho: a conciliação bancária e as contas a pagar e a receber no financeiro, as compras e a reposição na operação, a qualificação de leads em vendas. São processos que o cliente nunca vê, e é neles que a eficiência aparece no resultado. Nas empresas, essa conta está detalhada em eficiência operacional com IA.
É esse o trabalho que a B&Co. faz na consultoria: olhar a operação processo por processo e desenhar onde a automação e a IA entram, inclusive nos processos que ninguém de fora vê. Começa por um diagnóstico de onde está o ganho e do que precisa mudar no modelo.
Quero entender onde a IA entra na minha empresa →
Prefere e-mail? Escreva para contato@bitencourtco.com.
Este artigo faz parte da série sobre gestão de empresas na economia da IA. O panorama completo está em Economia da IA e a gestão de empresas.
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Sobre o autor
Toni Bitencourt é fundador da Bitencourt & Co., consultoria de gestão de empresas na economia da IA, e cofundador e Diretor Executivo da Nidus Assessoria de Marketing e Negócios, fundada em 2020.
Há quase uma década lidera operações que conectam marketing, vendas e tecnologia. Desenvolve sistemas, automações e operações de inteligência artificial e criou o RadarAgro, o primeiro software da B&Co.
Atua como mentor de negócios e palestrante em estratégia, processos e liderança. Antes do marketing, cursou Engenharia, de onde vem a visão analítica e sistêmica com que estrutura empresas e times.
Escreve sobre gestão de empresas na economia da IA no blog da B&Co., no LinkedIn e no YouTube.

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