Quando o prato muda, a indústria inteira precisa se mover

Foto: magnific.com
IMPRIMIR ARTIGO
COMPARTILHAR
Arroz, whisky e wellness: a lição de quem planejou a oferta para um mundo que já não existe.
Em 1985, o brasileiro consumia mais de 40 kg de arroz por pessoa ao ano. Em 2023, esse número caiu para 29,2 kg — uma retração de quase 30% em quatro décadas. E o mais revelador: mesmo com o preço caindo 14,2% no primeiro semestre de 2025, o consumo continuou despencando, recuando mais 4,7%. O feijão seguiu o mesmo caminho — queda de 4,2% no consumo, apesar de ficar 17,5% mais barato. O preço não é mais o problema. O comportamento é.

magnific.com
Enquanto o prato tradicional encolhe, outros mercados avançam com força. O setor fitness brasileiro triplicou sua base de academias na última década — de 21,5 mil para quase 60 mil estabelecimentos. O faturamento de nutrição esportiva disparou 69% entre 2019 e 2023. A economia global de wellness movimenta US$ 7,3 trilhões em 2025, com projeção de US$ 9 trilhões até 2028.
No café, o movimento é outro: a indústria faturou R$ 36,8 bilhões em 2024, com crescimento de 60,8% sobre o ano anterior. Os cafés especiais, que já representam até 10% do consumo brasileiro, registraram alta de 85% em novas certificações. O consumidor não parou de consumir. Ele migrou.

magnific.com
E quem não antecipou essa migração está pagando o preço. As cinco maiores produtoras de destilado do mundo — Diageo, Pernod Ricard, Campari, Brown-Forman e Rémy Cointreau — hoje estão sentadas sobre US$ 22 bilhões em estoques de destilados envelhecidos, o maior volume em mais de uma década. Whisky que foi produzido durante o boom de 2021 e 2022 não encontra mais o mesmo consumidor do outro lado. A Johnnie Walker viu suas vendas caírem 10,6% no último ano fiscal. A Diageo fechou destilarias nos EUA e na Escócia. A Jim Beam suspendeu a produção em uma de suas principais unidades durante todo 2026. Eles planejaram a oferta em um mundo que já não existe.

magnific.com
Há uma lição operacional clara nisso tudo: setores paralelos que crescem acabam encolhendo outros. O avanço do wellness e do fitness não compete diretamente com o arroz ou com o whisky — mas redefine o que o consumidor considera prioritário. E essa redefinição é silenciosa, gradual e, quando se torna evidente nos números, já é tarde para reagir.
Diversificação de portfólio não é sofisticação estratégica. É sobrevivência. Empresas da indústria alimentícia que operam com baixa variedade de SKUs estão expostas a uma equação perigosa: quando o consumo do seu produto principal recua, não há para onde redirecionar receita. A pergunta que deveria estar na mesa de toda diretoria da indústria de alimentos não é "quanto vendemos este mês" — é "o que nosso consumidor vai querer comprar daqui a cinco anos, e nós teremos isso para oferecer?"
Antecipar não é adivinhar. É ler os sinais que já estão nos dados.
Fontes: Embrapa Arroz e Feijão, ABIC – Indicadores da Indústria de Café 2024, BSCA – Associação Brasileira de Cafés Especiais, Scanntech / CNN Brasil, Financial Times / Robb Report, Diageo – Beverage Daily, The Spirits Business, VinePair, Global Wellness Institute, Euromonitor International / O Tempo, CONFEF / Fitness Brasil, Revista Cafeicultura.
Sobre o autor

Continue lendo

O que esperar de 2026: análise revela nova agenda executiva baseada em eficiência e sustentabilidade financeira
•

A leviandade do “SaaS por IA”: quando o deslumbramento supera a responsabilidade
•

Bitencourt & Co. lança o B&Co. Studies Vol. 1: uma análise sobre por que a estratégia falha na execução
•

Branding: a arte do PRÉ-CONCEITO.
•

A força do agro no crescimento do Brasil — e os bastidores da imersão estratégica entre B&Co. e ADB Alimentos
•